Soja: Farelo despenca em Chicago, mas dólar e prêmios seguram preços no Brasil

A soja fechou a sexta-feira (18) no vermelho na Bolsa de Chicago. O principal motivo, dessa vez, não foi o grão em si — mas sim a forte realização de lucros no farelo, que puxou toda a cadeia para baixo. Depois de recuar quase 20 pontos ao longo do pregão, o contrato novembro terminou o dia com baixa de 16,25 pontos, cotado a US$ 13,03 por bushel. Mesmo assim, vale destacar: apesar da queda desta sexta-feira, o novembro ainda fechou a semana com ganho acumulado de 7 pontos. Já o maio/27, referência para a safra brasileira, encerrou com US$ 13,36, também com perda de 16 pontos.

No mercado brasileiro, porém, a história foi um pouco diferente. A pressão vinda de Chicago encontrou resistência na combinação entre dólar e prêmios, o que permitiu que as referências nacionais permanecessem mais estáveis nesta sexta. A moeda americana, por sua vez, fechou a semana cotada a R$ 5,15, com alta de 0,12%.

No Porto de Santos, as indicações para a soja disponível também mantiveram sustentação: R$ 163,00 por saca para pagamento em novembro. Já para a safra nova, as referências ficaram em R$ 155,00 por saca para entrega em fevereiro e pagamento em abril. Por sua vez, os negócios com entrega em março e liquidação em abril tiveram referência de R$ 152,00 por saca, segundo levantamento da Royal Rural.

Assim, mesmo diante das perdas superiores a 16 pontos em Chicago, os preços brasileiros mostraram mais resistência — amparados, mais uma vez, pela composição entre câmbio e prêmios nos portos. Aliás, esse foi um movimento bastante comum ao longo de toda a semana.

Farelo pressiona soja e lidera perdas no complexo

A pressão mais intensa desta sexta-feira, de fato, veio dos derivados. O farelo de soja dezembro perdeu US$ 12,70 — mais de 3% —, encerrando a US$ 358,60 por tonelada curta. Enquanto isso, o óleo dezembro caiu 93 pontos, fechando a 68,22 cents por libra-peso.

Segundo Ronaldo Fernandes, analista de mercado e diretor da Royal Rural, esse comportamento já vinha sendo observado ao longo da sessão. De acordo com ele, o farelo entrou em realização depois de aproximadamente 35 dias de valorização contínua. Ou seja, o derivado — que até então vinha sustentando boa parte da valorização da soja — inverteu a relação nesta sexta-feira.

Essa leitura, aliás, coincide com a avaliação da Pro Farmer, que atribuiu as perdas da soja e do farelo à realização de lucros e à liquidação de posições compradas, com o movimento liderado justamente pelo derivado.

Argentina entra na conta com novo marco de biocombustíveis

Além do movimento técnico, o mercado também começou a incorporar uma nova variável: o avanço do marco regulatório dos biocombustíveis no Senado argentino. Caso o projeto seja aprovado também pela Câmara dos Deputados, a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel deve subir de 7,5% para 10%.

Como o biodiesel argentino utiliza principalmente óleo de soja como matéria-prima, essa mudança tende a aumentar a demanda doméstica pelo derivado — e, consequentemente, pode alterar toda a dinâmica do esmagamento no país.

Segundo os cálculos de Fernandes, mantido o consumo de diesel nos níveis atuais, o B10 poderia exigir aproximadamente 285 mil toneladas adicionais de óleo de soja por ano. Caso todo esse volume viesse de novo esmagamento, seriam necessárias cerca de 1,5 milhão de toneladas adicionais de soja — o que, por sua vez, poderia gerar em torno de 1,15 milhão de toneladas extras de farelo.

Entretanto, Fernandes faz uma ressalva importante: esse é um cenário máximo, não uma projeção de produção. Isso porque o novo desenho regulatório também abre espaço para que as grandes processadoras integradas do mercado argentino redirecionem óleo que já produzem — volumes que hoje têm outros destinos, incluindo a exportação.

“O B10 cria mais demanda por óleo, mas o tamanho do aumento da oferta de farelo vai depender de quanto dessa demanda será atendida por novo esmagamento e quanto será atendido com óleo que já é produzido hoje”, explica Fernandes.

Colheita americana avança e China volta a comprar

Por fim, a entrada da nova safra dos Estados Unidos completa o quadro de pressão. Segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), 6% da área de soja já havia sido colhida até o último domingo (13) — contra 5% no mesmo período do ano passado e uma média de apenas 3% nos últimos cinco anos. Com a colheita avançando, o mercado passa a receber, na prática, a nova oferta norte-americana, enquanto acompanha os primeiros relatos de produtividade.

Do lado da demanda, no entanto, houve uma sinalização positiva nesta sexta-feira: o USDA anunciou uma venda de 111 mil toneladas de soja dos Estados Unidos para a China, com entrega prevista para a temporada 2026/27. Ainda assim, a compra não foi suficiente para neutralizar a pressão dos derivados e da entrada da safra americana.

Por ora, as atenções do mercado seguem voltadas para as relações entre Estados Unidos e China — com agricultura e soja entre os temas acompanhados de perto antes do encontro previsto entre Donald Trump e Xi Jinping.

Assim, a soja encerra a semana com uma combinação bastante clara de forças: de um lado, demanda chinesa ainda presente; do outro, colheita americana avançando e realização forte no farelo. E, nesta sexta-feira, foi o farelo quem falou mais alto — depois de sustentar parte importante da recente valorização da soja, o derivado devolveu ganhos e puxou o grão para baixo em Chicago.

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