Uma decisão adotada em uma propriedade rural nos Campos Gerais do Paraná, há 50 anos, redefiniu os rumos da produção de alimentos no Brasil. Em 1976, no município de Carambeí, o agricultor Franke Dijkstra rompeu com o manejo convencional da época, aposentou o arado e realizou o primeiro cultivo em plantio direto na Fazenda Frank’Anna. No último dia 15 de agosto, a mesma área serviu de palco para uma solenidade em comemoração a esse marco histórico.
O evento do Jubileu de Ouro do Sistema Plantio Direto (SPD) na região concentrou diversos representantes do agronegócio para celebrar as cinco décadas da adoção da tecnologia e os 85 anos de Franke Dijkstra, pioneiro que encarou como uma “loucura” a ideia de “copiar a natureza”.
A cerimônia reuniu homenagens, entregas de cartas, reconhecimentos concedidos pela Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (FEBRAPDP) e depoimentos de três gerações dos Dijkstra, ressaltando a evolução do SPD de uma prática agrícola para um patrimônio familiar.
Filosofia de “copiar a natureza”
Ao revelar as motivações da época, Franke Dijkstra explicou que a transição ocorreu após testemunhar a erosão provocada pelo modelo tradicional, que levava a camada fértil do solo “rio abaixo”. O produtor observou o ecossistema natural, no qual as sementes germinam diretamente sobre a palhada, sem a necessidade do revolvimento da terra.
Ele concluiu que as culturas se desenvolvem adequadamente com apenas um pequeno corte para a inserção da semente, preservando a atividade biológica do solo, elemento fundamental para manter a fertilidade e a sustentabilidade do sistema a longo prazo.
Dijkstra também frisou a construção coletiva da metodologia, afirmando que “nada nasce sozinho” e que o avanço do SPD dependeu do alinhamento de ideias e do apoio de uma rede de colaboradores. O agricultor citou a importância de nomes como Herbert Bartz, Nonô Pereira e Hans Peeten na estruturação e disseminação inicial do plantio direto no país.
Por fim, o pioneiro abordou os questionamentos e a desconfiança que enfrentou na época. Ele relatou ter sido chamado de “louco”, argumentando que contestações ao senso comum e uma dose de “loucura” são etapas indispensáveis para desafiar paradigmas e promover inovações em qualquer setor.
Legado para o agronegócio
O Sistema Plantio Direto transformou-se em uma das principais tecnologias de conservação do solo no Brasil, contribuindo para a redução da erosão, a melhoria da infiltração de água, o sequestro de carbono e a sustentabilidade da produção agrícola em larga escala.
A celebração na Fazenda Frank’Anna reforçou a importância dos Campos Gerais como berço do plantio direto no Brasil, reconhecendo o protagonismo de produtores que, com coragem e visão, mudaram a forma de produzir alimentos no país.



